O blog 40º à Sombra contou os seus dias e partiu para parte incerta, peço desde já desculpa, a quem ainda tem paciência para me ler, deste facelifting ao blog, fui acusada de plágio e como não quero ferir susceptibilidades, resolvi mudar-me para o Mikado.
P.S.: Os comentários não puderam ser mantidos mas continuam a ser lembrados!
P.S.: Os comentários não puderam ser mantidos mas continuam a ser lembrados!
Sem nos apercebermos, sem sequer darmos conta, afastamos tudo o que tenha a ver com a temática morte, cobrimo-la com panos espessos e opacos, tentamos desmistificá-la, ignorá-la, evitamos pronunciá-la com receio que se lembre de nós. Mas apesar das infindáveis tentativas de a esquecermos, essa palavra impronunciável agride-nos, esbofeteia-nos - numa estrada, numa notícia, um parente afastado, um parente próximo, o pai de uma amiga nossa que tem exactamente a mesma idade do nosso pai.
Assustamo-nos, telefonamos a essa nossa amiga e sentimos medo na sua voz, deparamo-nos com perdas irrecuperáveis, com raízes que se vão perdendo, as referências que vão ficando cada vez mais distantes. A queda é equivalente a um salto de um prédio de 20 andares, em que o peito é comprimido, falta-nos oxigénio, não conseguimos respirar, choramos por dentro e lamentamos por fora e mais uma vez o tempo é a rede que ampara essa angústia quase interminável.
E enquanto nos cobrimos de luto, enquanto a morte se entranha em nós como terra nas unhas, enquanto carpimos pelo desaparecimento de alguém que nos deixou como herança a saudade, somos seres temerosos, estamos tão perto do significado da vida quanto de Deus.
Assustamo-nos, telefonamos a essa nossa amiga e sentimos medo na sua voz, deparamo-nos com perdas irrecuperáveis, com raízes que se vão perdendo, as referências que vão ficando cada vez mais distantes. A queda é equivalente a um salto de um prédio de 20 andares, em que o peito é comprimido, falta-nos oxigénio, não conseguimos respirar, choramos por dentro e lamentamos por fora e mais uma vez o tempo é a rede que ampara essa angústia quase interminável.
E enquanto nos cobrimos de luto, enquanto a morte se entranha em nós como terra nas unhas, enquanto carpimos pelo desaparecimento de alguém que nos deixou como herança a saudade, somos seres temerosos, estamos tão perto do significado da vida quanto de Deus.
Incomoda-me
o ruído dos outros,
esse desassossego de olhares.
Incomoda-me
o silêncio,
esse vazio que nos inquieta.
Incomoda-me
o riso das gentes,
esse eco contido num sorriso.
Mas incomoda-me muito mais
o meu desassossego,
o meu silêncio,
o meu riso
…quando te ausentas.
o ruído dos outros,
esse desassossego de olhares.
Incomoda-me
o silêncio,
esse vazio que nos inquieta.
Incomoda-me
o riso das gentes,
esse eco contido num sorriso.
Mas incomoda-me muito mais
o meu desassossego,
o meu silêncio,
o meu riso
…quando te ausentas.
O branco da parede que me olhava de viés baloiçou-me, rodopiou-me e esgravatou delicadamente aquilo que, pensava eu, tinha enterrado no sítio mais esconso da memória. O pensamento soltou-se, como uma bolha de ar e lembrei-me de ti.
Tento não te lembrar para te tentar esquecer mas encontro-te em cada cor, sabor, rua, paisagem, cheiro, tenho aprendido que a saudade só conhece o lápis e não a borracha!
Lembro os contornos da tua mão, do seu dócil toque na minha pele, da rouquidão da tua voz a segredar-me amor, do mel do teu abraço, enterneço-me e logo a seguir enraiveço-me. Não te quero lembrar, quero calar a tua voz, algemar as tuas mãos, fermentar o mel do teu abraço, não me quero enternecer, nem sequer enraivecer mas insistes em te fazer lembrar.
Ainda no outro dia, já não sei se há horas ou dias ou meses, procurava nas minhas gavetas algo (que nunca cheguei a encontrar) e deparei-me com um bilhete teu que dizia: “Amor, preocupa-te mais em ser do que em ter porque ser é-se sempre e o que se tem, quase sempre se perde! Beijos de quem te entranhou”…hesitei…parei…pensei em rasgar…rasguei apenas um pedaço…acabei por queimá-lo…arrependi-me e logo a seguir percebi que te tinha perdido sem nunca te ter tido… e fui eu, amor, quem te entranhou…
Não quero que tu penses que este texto fala de mim…fala de sentimentos que podiam ser meus mas que afinal são de todos nós
Lembro os contornos da tua mão, do seu dócil toque na minha pele, da rouquidão da tua voz a segredar-me amor, do mel do teu abraço, enterneço-me e logo a seguir enraiveço-me. Não te quero lembrar, quero calar a tua voz, algemar as tuas mãos, fermentar o mel do teu abraço, não me quero enternecer, nem sequer enraivecer mas insistes em te fazer lembrar.
Ainda no outro dia, já não sei se há horas ou dias ou meses, procurava nas minhas gavetas algo (que nunca cheguei a encontrar) e deparei-me com um bilhete teu que dizia: “Amor, preocupa-te mais em ser do que em ter porque ser é-se sempre e o que se tem, quase sempre se perde! Beijos de quem te entranhou”…hesitei…parei…pensei em rasgar…rasguei apenas um pedaço…acabei por queimá-lo…arrependi-me e logo a seguir percebi que te tinha perdido sem nunca te ter tido… e fui eu, amor, quem te entranhou…
Não quero que tu penses que este texto fala de mim…fala de sentimentos que podiam ser meus mas que afinal são de todos nós
Entre por essa porta agora
e diga que me adora,
você tem meia hora
para mudar a minha vida.
Vem, vambora
que o que você demora
é o que o tempo leva.
Ainda tem o seu perfume pela casa.
Ainda tem você na sala.
Porque meu coração dispara
quando tem o seu cheiro dentro de um livro,
dentro da noite veloz.
Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala.
Porque meu coração dispara
quando tem o seu cheiro dentro de um livro,
na cinza das horas.
Adriana Calcanhoto, Perfil
e diga que me adora,
você tem meia hora
para mudar a minha vida.
Vem, vambora
que o que você demora
é o que o tempo leva.
Ainda tem o seu perfume pela casa.
Ainda tem você na sala.
Porque meu coração dispara
quando tem o seu cheiro dentro de um livro,
dentro da noite veloz.
Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala.
Porque meu coração dispara
quando tem o seu cheiro dentro de um livro,
na cinza das horas.
Adriana Calcanhoto, Perfil
É olhar as ondas do mar e ver a maresia
É saborear o vento e senti-lo na pele.
É beber o que é belo e inebriar a alma.
É ter os cinco sentidos num só.
É ser árvore sem tronco,
É ter trono sem reinar,
É ser tudo e nada ser.
É acreditar que todos os dias são azuis,
É crer que todos os olhares são cristalinos.
É rodopiar ao som do corpo,
É sorrir sem motivo,
É viver sem respirar.
É não ter medo de amar, amar e amar…
É saborear o vento e senti-lo na pele.
É beber o que é belo e inebriar a alma.
É ter os cinco sentidos num só.
É ser árvore sem tronco,
É ter trono sem reinar,
É ser tudo e nada ser.
É acreditar que todos os dias são azuis,
É crer que todos os olhares são cristalinos.
É rodopiar ao som do corpo,
É sorrir sem motivo,
É viver sem respirar.
É não ter medo de amar, amar e amar…
Entrei no quarto e vi-te sentado na cama, fixei o teu olhar e reparei que estava transparente como as noites de luar reflectidas nas águas do rio. Respiravas com dificuldade e praticamente não me olhaste, não me sentiste, quando te perguntei como me chamava disseste todos os nomes menos o meu.
Lembro-me de ti, não com esse corpo e com essa cor-de-vazio nos olhos, mas sim com um olhar que traduzia todas as cores do arco-íris, é desse avô que me lembro e que nunca hei-de esquecer, que me pegava ao colo, me contava histórias de encantar e eu sentia-me como uma princesa junto do trono das tuas palavras. Desapareceste naquele dia em que foste internado e te puseram um bypass, como se esse mecanismo artificial de sobrevivência pudesse substituir a vida que tu emanavas.
Agora a princesa abdicou do trono, sou mais uma cidadã do mundo que vai acumulando saudades, de ti, das memórias que nós os dois partilhávamos, grande parte do que sou hoje devo-o a ti, fizeste-me, desenhaste o perfil da minha alma.
Enquanto te observava vegetativo nesse quarto, que tu insistias em dizer que não era o teu, senti-me tão abandonada, pensar que esta era a altura possível para te dizer tudo isto, o quanto te apreciava e agradecer as memórias que me doaste, mas tu limitaste-te a ser uma sombra do que foste, a não existires para além desse corpo feito de trapos.
Fechei a porta para te deixar descansar, como se cansado de viver fosse a única razão de te manter acordado, e por momentos, julguei ouvir pronunciar: Princesa.
Lembro-me de ti, não com esse corpo e com essa cor-de-vazio nos olhos, mas sim com um olhar que traduzia todas as cores do arco-íris, é desse avô que me lembro e que nunca hei-de esquecer, que me pegava ao colo, me contava histórias de encantar e eu sentia-me como uma princesa junto do trono das tuas palavras. Desapareceste naquele dia em que foste internado e te puseram um bypass, como se esse mecanismo artificial de sobrevivência pudesse substituir a vida que tu emanavas.
Agora a princesa abdicou do trono, sou mais uma cidadã do mundo que vai acumulando saudades, de ti, das memórias que nós os dois partilhávamos, grande parte do que sou hoje devo-o a ti, fizeste-me, desenhaste o perfil da minha alma.
Enquanto te observava vegetativo nesse quarto, que tu insistias em dizer que não era o teu, senti-me tão abandonada, pensar que esta era a altura possível para te dizer tudo isto, o quanto te apreciava e agradecer as memórias que me doaste, mas tu limitaste-te a ser uma sombra do que foste, a não existires para além desse corpo feito de trapos.
Fechei a porta para te deixar descansar, como se cansado de viver fosse a única razão de te manter acordado, e por momentos, julguei ouvir pronunciar: Princesa.
Ainda sinto o carmim dos teus lábios a despedirem-se dos meus.
Ainda recordo aquele dia de viagem em que os raios de sol rendilhavam por entre os ramos das árvores que dançavam ao longo da estrada.
Ainda em mim um pedaço de música que se solta, agita os ombros e afoga a lembrança num murmúrio.
Ainda sinto o toque do teu beijo delével numa alma que sacode as suas asas e voa para lá das amarras.
Ainda sinto que nos perdemos um do outro quando estávamos lado a lado, frente a frente…o amor não será mais do que um labirinto acessível apenas aos eleitos… porque não nos amámos?
Ainda recordo aquele dia de viagem em que os raios de sol rendilhavam por entre os ramos das árvores que dançavam ao longo da estrada.
Ainda em mim um pedaço de música que se solta, agita os ombros e afoga a lembrança num murmúrio.
Ainda sinto o toque do teu beijo delével numa alma que sacode as suas asas e voa para lá das amarras.
Ainda sinto que nos perdemos um do outro quando estávamos lado a lado, frente a frente…o amor não será mais do que um labirinto acessível apenas aos eleitos… porque não nos amámos?
Ainda anteontem, quando menos esperavas, esperava-te à janela, corri para abrir a porta da entrada do prédio, fiquei com a mão presa no trinco da porta da nossa casa, da minha casa (dizias que não a sentias como tua, mas mesmo assim eu segredava a mim própria que era nossa casa) para afagar o teu corpo cansado…mas afastaste o meu abraço. Sentaste-te no sofá (que eu dizia que era o teu sofá), pesado, tirei-te os sapatos, massajei-te os pés, pediste-me para pôr água a correr na banheira para o teu banho.
Ainda ontem, peguei no telefone uma série de vezes para te dar um beijo ou apenas para ouvir o eco da tua voz a estremecer o meu coração…mas não atendeste. Quando chegaste à minha casa, disseste que tinhas estado muito ocupado, foste pôr a água do banho a correr e jantámos, eu a ver a novela e tu a veres o telejornal.
Hoje ainda não tive tempo para quase nada, tenho andado tão ocupada com a lida da casa, ouvi o telefone a tocar umas quantas vezes mas nunca fui a tempo de atender. É verdade, Vou ao cinema ver aquele filme, que estreou há duas semanas (lembraste, aquele que te estava sempre a dizer que queria ir ver mas tu dizias-me que estavas demasiado cansado e que provavelmente adormecerias) com a Alice e a Carmo, tens o jantar no forno, se quiseres aquece-lo bastam 5 minutos para ficar pronto. Espero que ainda estejas acordado quando chegar (senão estiveres não te preocupes, eu percebo, tens muitas preocupações no teu emprego, aliás já estou habituada, adormeces sempre no sofá depois do jornal), beijos da tua mulher.
Ainda ontem, peguei no telefone uma série de vezes para te dar um beijo ou apenas para ouvir o eco da tua voz a estremecer o meu coração…mas não atendeste. Quando chegaste à minha casa, disseste que tinhas estado muito ocupado, foste pôr a água do banho a correr e jantámos, eu a ver a novela e tu a veres o telejornal.
Hoje ainda não tive tempo para quase nada, tenho andado tão ocupada com a lida da casa, ouvi o telefone a tocar umas quantas vezes mas nunca fui a tempo de atender. É verdade, Vou ao cinema ver aquele filme, que estreou há duas semanas (lembraste, aquele que te estava sempre a dizer que queria ir ver mas tu dizias-me que estavas demasiado cansado e que provavelmente adormecerias) com a Alice e a Carmo, tens o jantar no forno, se quiseres aquece-lo bastam 5 minutos para ficar pronto. Espero que ainda estejas acordado quando chegar (senão estiveres não te preocupes, eu percebo, tens muitas preocupações no teu emprego, aliás já estou habituada, adormeces sempre no sofá depois do jornal), beijos da tua mulher.
O teu olhar,
tem o sabor dos meus lábios.
O teu cabelo,
é da cor da minha pele.
O teu calor,
funde-se no meu regaço.
A minha alma,
confunde-se com o teu abraço.
Lambemos uma lágrima
e mal lhe sentimos o gosto.
Dançamos ao som do vento
e nunca nos cansamos.
Dedilhamos murmúrios,
sussurramos sorrisos,
escondemos o sol na palma da mão,
somos um só e nunca estamos sós!
tem o sabor dos meus lábios.
O teu cabelo,
é da cor da minha pele.
O teu calor,
funde-se no meu regaço.
A minha alma,
confunde-se com o teu abraço.
Lambemos uma lágrima
e mal lhe sentimos o gosto.
Dançamos ao som do vento
e nunca nos cansamos.
Dedilhamos murmúrios,
sussurramos sorrisos,
escondemos o sol na palma da mão,
somos um só e nunca estamos sós!