Entranhar

O branco da parede que me olhava de viés baloiçou-me, rodopiou-me e esgravatou delicadamente aquilo que, pensava eu, tinha enterrado no sítio mais esconso da memória. O pensamento soltou-se, como uma bolha de ar e lembrei-me de ti.
Tento não te lembrar para te tentar esquecer mas encontro-te em cada cor, sabor, rua, paisagem, cheiro, tenho aprendido que a saudade só conhece o lápis e não a borracha!
Lembro os contornos da tua mão, do seu dócil toque na minha pele, da rouquidão da tua voz a segredar-me amor, do mel do teu abraço, enterneço-me e logo a seguir enraiveço-me. Não te quero lembrar, quero calar a tua voz, algemar as tuas mãos, fermentar o mel do teu abraço, não me quero enternecer, nem sequer enraivecer mas insistes em te fazer lembrar.
Ainda no outro dia, já não sei se há horas ou dias ou meses, procurava nas minhas gavetas algo (que nunca cheguei a encontrar) e deparei-me com um bilhete teu que dizia: “Amor, preocupa-te mais em ser do que em ter porque ser é-se sempre e o que se tem, quase sempre se perde! Beijos de quem te entranhou”…hesitei…parei…pensei em rasgar…rasguei apenas um pedaço…acabei por queimá-lo…arrependi-me e logo a seguir percebi que te tinha perdido sem nunca te ter tido… e fui eu, amor, quem te entranhou…


Não quero que tu penses que este texto fala de mim…fala de sentimentos que podiam ser meus mas que afinal são de todos nós

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